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WorksheetsRECUPERAÇÃO PARALELA de LÍNGUA PORTUGUESA-3ºAno Redes-1ªEtap
Total questions: 20
Worksheet time: 3600secs
Após a Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro de 1922 na cidade de São Paulo, o movimento modernista brasileiro começa a despontar no cenário cultural e artístico do país. Sobre a primeira geração modernista, é correto afirmar:
A produção literária da primeira geração modernista era intimista, regionalista e urbana.
Os escritores desse momento buscavam uma poesia mais equilibrada e preocupada com a palavra e a forma.
A primeira geração modernista constituiu um dos melhores momentos da ficção brasileira.
A intenção dessa fase esteve relacionada com a denúncia social e o engajamento político.
Essa fase esteve marcada por duas tendências: a destruição e a construção.
Leia as proposições abaixo e marque as sequências que completam a frase:
"O grupo modernista com a SAM pretendeu______________"
I - reagir aos movimentos literários anteriores.
II - cultuar o índio como elemento característico de nossa civilização.
III - repudiar a importação de ideias.
IV - ver, no indianismo, o poético da lenda e do mito, elementos de autenticidade.
V - expressar a velocidade, a vida febril e a aceleração do desenvolvimento.
I, II e V
II, IV e V
I, III, IV
II, IV, e V
II, III e V
Leia as proposições abaixo e marque as sequências que completam a frase: "No Modernismo constatamos_________"
I - manifestação inicial na poesia, estendendo-se à prosa.
II - reação ao regionalismo.
III - culto à forma.
IV - rompimento com a métrica tradicional.
V - nacionalização de nossa literatura.
é certo afirmar que:
I, II e IV estão corretas
II, III e IV estão incorretas
I, IV e V estão corretas
I, III e V estão incorretas
todas estão corretas.
Em relação ao Modernismo, podemos afirmar que em sua primeira fase há:
maior aproximação entre a língua falada e a escrita, valorizando-se literariamente o nível coloquial.
pouca atenção ao valor estético da linguagem, privilegiando o desenvolvimento da pesquisa formal.
grande liberdade de criação, mas expressão pobre.
reconquista do verso livre.
ausência de inspiração nacionalista.
Considere as seguintes afirmações acerca da poesia modernista brasileira.
I. Valorizou a concepção idealizada da figura feminina.
II. No tratamento de alguns temas, manteve um diálogo irreverente com a tradição literária.
III. Recuperou a imagem da “mulher fatal”, enaltecida pelos clássicos, mas em versos livres e brancos.
IV. Adotou uma linguagem prosaica, cujo ritmo fluente revela a marca da oralidade.
Assinale:
se apenas I estiver correta.
se apenas IV estiver correta.
se apenas I e III estiverem corretas.
se apenas I e IV estiverem corretas.
se apenas II e IV estiverem corretas.
Assinale a alternativa correta para as características do Modernismo de 1922, também chamado de “fase heroica”.
espírito polêmico e destruidor, valorização poética do cotidiano, nacionalismo, busca da originalidade a qualquer preço.
Temática ampla com preocupação filosófica, predomínio do romance regionalista, valorização do cotidiano, nacionalismo.
Espírito polêmico, busca da originalidade, predomínio do romance psicológico, valorização da cidade e das máquinas.
Visão futurista, espírito polêmico e destruidor, predomínio da prosa poética, valorização da cidade e das máquinas.
Valorização poética do cotidiano, linguagem repleta de neologismos, nacionalismo e busca da poesia na natureza.
Uma linha de coerência se esboça através dos zigue-zagues de sua vida. Ora espiritualista, ora marxista, criando um dia o Pau-Brasil, e logo buscando universalizá-lo em antropofagia, primitivo e civilizado a um tempo, como observou Manuel Bandeira, solapando o edifício burguês sem renunciar à habitação em seus andares mais altos, Oswald manteve sempre intata sua personalidade, de sorte a provocar, ainda em seus últimos dias, a irritação ou a mágoa que inspirava quando fauve modernista de 1922.
(Carlos Drummond de Andrade, Poesia e prosa.)
Carlos Drummond de Andrade identifica, no texto transcrito, uma linha de coerência na vida de Oswald de Andrade. Esta coerência se verifica, segundo o texto,
nos aspectos ideológicos e político.
na criação poética.
na obra de ficção narrativa.
na defesa dos valores burgueses.
na personalidade forte e agressiva.
Uma linha de coerência se esboça através dos zigue-zagues de sua vida. Ora espiritualista, ora marxista, criando um dia o Pau-Brasil, e logo buscando universalizá-lo em antropofagia, primitivo e civilizado a um tempo, como observou Manuel Bandeira, solapando o edifício burguês sem renunciar à habitação em seus andares mais altos, Oswald manteve sempre intata sua personalidade, de sorte a provocar, ainda em seus últimos dias, a irritação ou a mágoa que inspirava quando fauve modernista de 1922.
(Carlos Drummond de Andrade, Poesia e prosa.)
Carlos Drummond de Andrade, ao opinar sobre Oswald de Andrade, vale-se da ironia, que fica evidente numa das observações que relaciona o lado político e ideológico, a personalidade e o comportamento em termos de classe social. A ironia de Drummond se manifesta com clareza no segmento:
Uma linha de coerência se esboça através dos ziguezagues de sua vida.
criando um dia o Pau-Brasil, e logo buscando universalizá-lo em antropofagia.
primitivo e civilizado a um tempo, como observou Manuel Bandeira.
solapando o edifício burguês sem renunciar à habitação em seus andares mais altos.
Oswald manteve sempre intata sua personalidade, de sorte a provocar, ainda em seus últimos dias, a irritação ou a mágoa.
TEXTO I
Em pé, no meio do espaço que formava a grande abóbada de árvores, encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um índio na flor da idade.
Uma simples túnica de algodão, a que os indígenas chamavam aimará, apertada à cintura por uma faixa de penas escarlates, caía-lhe dos ombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe delgado e esbelto como um junco selvagem.
Sobre a alvura diáfana do algodão, a sua pele, cor de cobre, brilhava com refl exos dourados; os cabelos pretos cortados rentes, a tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a fronte; a pupila negra, móbil, cintilante; a boca forte, mas bem modelada e guarnecida de dentes alvos, davam ao rosto pouco oval a beleza inculta da graça, da força e da inteligência.
TEXTO II
Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando.
Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaimuns diz que habitando a água doce por lá.
Nem bem teve seis anos deram água num chocalho pra ele e começou falando como todos. E pediu pra mãe que
largasse a mandioca ralando na cevadeira e levasse ele passear no mato. A mãe não quis porque não podia largar da mandioca não. Ele choramingou dia inteiro.
(Texto com adaptações.)
Considere as seguintes afirmações acerca desses textos.
I. Os dois textos são descritivos: no Texto I predomina a descrição estática, de traços físicos da personagem; no texto II predomina a descrição dinâmica, de ações que caracterizam a personagem.
II. Identifica-se o texto I como produto do Romantismo, especialmente pelo traço de idealização do herói exposto na linguagem.
III. As marcas de estilo presentes no texto II são próprias do Modernismo: imitação do linguajar coloquial, palavras e construções da língua popular.
IV. O resgate da temática indianista está presente nos dois textos, com o mesmo tratamento, prestigiando o elemento local e adotando igual ponto de vista na composição da singular identidade do homem brasileiro.
Deve-se concluir que estão corretas as afirmações:
I, II e III, apenas.
I, III e IV, apenas.
II, e IV, apenas.
II, III e IV apenas.
I, II, III e IV.
Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos, em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasacas.
Um verme principiou roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas.
(“Os mortos de sobrecasaca”)
A partir da leitura do poema acima, assinale a afirmativa INCORRETA.
O poema desenvolve um sentimento sutil , mas profundo sobre objetos que rodeiam o sujeito lírico.
O “álbum de fotografias” pode ser entendido como um sinal de lirismo, pois remete às sensações íntimas do sujeito lírico.
Não há qualquer traço de lirismo, pois não se trata de um poema de amor.
O poema trata da experiência afetiva da memória, uma das marcas da poesia de Carlos Drummond de Andrade.
O “verme” que rói as fotografias simboliza a passagem do tempo, que envelhece as coisas e as pessoas.
MÃOS DADAS
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao amanhecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo (1940)
Considerando o poema “Mãos dadas”, no conjunto da obra a que pertence (Sentimento do mundo), é correto afirmar que Carlos Drummond de Andrade:
recusa os princípios formais e temáticos do primeiro Modernismo.
tematiza o lugar da poesia num momento histórico caracterizado por graves problemas mundiais.
vale-se de temas que valorizam aspectos recalcados da cultura brasileira.
alinha-se à poética que critica as técnicas do verso livre.
relativiza sua adesão à poesia comprometida com os dilemas históricos, pois a arte deve priorizar o tema da união entre os homens.
MÃOS DADAS
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao amanhecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo (1940)
No primeiro verso do poema, o adjetivo “caduco” significa, no contexto, que o mundo:
é feito de justiças e estas estão se perdendo.
está deixando de ser um lugar tranquilo.
é um lugar velho e sem finalidade.
é um lugar onde as normas não têm mais razão de ser.
é um lugar que deve manter as normas para adquirir sentido.
MÃOS DADAS
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao amanhecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo (1940)
Considere as seguintes afirmações sobre o texto.
I. Trata-se de um poema em que o eu lírico afirma seu desejo de que a poesia possa reconstruir aquilo que, tendo sido destruído no passado, permanece atual em sua memória.
II. O poeta manifesta a confiança de que sua nova poesia poderá superar os problemas pessoais que quase o levaram ao suicídio e o fizeram desejar isolar-se.
III. O poeta convoca outros poetas para que, juntos, possam se libertar das velhas convenções que prejudicam a poesia moderna.
IV. Os versos da 1ª estrofe indicam o anseio do eu lírico de que sua poesia se aproxime dos homens e ajude a transformar a vida presente.
V. Na 2ª estrofe, o eu lírico nega que a poesia desse momento histórico deva tratar de temas sentimentais ou amorosos.
São corretas apenas as afirmações
I, II e III.
I e IV.
II e III.
III e IV.
IV e V.
REVELAÇÃO DO SUBÚRBIO
Quando vou para Minas, gosto de ficar de pé, contra a vidraça do carro,
vendo o subúrbio passar.
O subúrbio todo se condensa para ser visto depressa,
com medo de não repararmos suficientemente
em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.
A noite come o subúrbio e logo o devolve,
ele reage, luta, se esforça,
até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais
e à noite só existe a tristeza do Brasil.”
Para a caracterização do subúrbio, o poeta lança mão, principalmente, da(o)
personificação.
paradoxo.
eufemismo.
sinestesia.
silepse.
REVELAÇÃO DO SUBÚRBIO
Quando vou para Minas, gosto de ficar de pé, contra a vidraça do carro,
vendo o subúrbio passar.
O subúrbio todo se condensa para ser visto depressa,
com medo de não repararmos suficientemente
em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.
A noite come o subúrbio e logo o devolve,
ele reage, luta, se esforça,
até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais
e à noite só existe a tristeza do Brasil.”
No poema de Drummond, a presença dos motivos da velocidade, da mecanização, da eletricidade e da metrópole configura-se como:
uma adesão do poeta ao mito do progresso, que atravessa as letras e as artes desde o surgimento da modernidade.
manifestação do entusiasmo do poeta moderno pela industrialização por que, na época, passava o Brasil.
marca da influência da estética futurista da Antropofagia na literatura brasileira do período posterior a 1940.
uma incorporação, sob nova inflexão política e ideológica, de temas característicos das vanguardas que influenciaram o Modernismo antecedente.
uma crítica do poeta pós-modernista às alterações causadas, na percepção humana, pelo avanço indiscriminado da técnica na vida cotidiana.
REVELAÇÃO DO SUBÚRBIO
Quando vou para Minas, gosto de ficar de pé, contra a vidraça do carro,
vendo o subúrbio passar.
O subúrbio todo se condensa para ser visto depressa,
com medo de não repararmos suficientemente
em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.
A noite come o subúrbio e logo o devolve,
ele reage, luta, se esforça,
até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais
e à noite só existe a tristeza do Brasil.”
Segundo o crítico e historiador da literatura Antônio Candido de Mello e Souza, justamente na década que presumivelmente corresponde ao período de elaboração do livro a que pertence o poema, o modo de se conceber o Brasil havia sofrido “alteração marcada de perspectivas”. A leitura do poema de Drummond permite concluir corretamente que, nele, o Brasil não mais era visto como país:
agrícola (fornecedor de matéria-prima), mas como industrial (produtor de manufaturados).
arcaico (retardatário social e economicamente) mas, sim, percebido como moderno (equiparado aos países mais avançados).
provinciano (caipira, localista) mas, sim, cosmopolita (aberto aos intercâmbios globais).
novo (em potência, por realizar-se), mas como subdesenvolvido (marcado por pobreza e atrofia).
rural (sobretudo camponês), mas como suburbano (ainda desprovido de processos de urbanização).
DESCOBRIMENTO
Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De sopetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! Muito longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro de cabelos escorrendo nos olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia, Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu...
ANDRADE, M. Poesias completas. São Paulo: Edusp, 1987.
O poema Descobrimento, de Mário de Andrade, marca a postura nacionalista manifestada pelos escritores modernistas.
Recuperando o fato histórico do “descobrimento”, a construção poética problematiza a representação nacional a fim de:
resgatar o passado indígena brasileiro.
criticar a colonização portuguesa no Brasil.
defender a diversidade social e cultural brasileira.
promover a integração das diferentes regiões do país.
valorizar a Região Norte, pouco conhecida pelos brasileiros.
DO AMOR À PÁTRIA
São doces os caminhos que levam de volta à pátria. Não à pátria amada de verdes mares bravios, a mirar em berço esplêndido o esplendor do Cruzeiro do Sul; mas a uma outra mais íntima, pacífica e habitual – uma cuja terra se comeu em criança, uma onde se foi menino ansioso por crescer, uma onde se cresceu em sofrimentos e esperanças plantando canções, amores e filhos ao sabor das estações.
MORAES, V. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987.
O nacionalismo constitui tema recorrente na literatura romântica e na modernista. No trecho, a representação da pátria ganha contornos peculiares porque:
o amor àquilo que a pátria oferece é grandioso e eloquente.
os elementos valorizados são intimistas e de dimensão subjetiva.
o olhar sobre a pátria é ingênuo e comprometido pela inércia.
o patriotismo literário tradicional é subvertido e motivo de ironia.
a natureza é determinante na percepção do valor da pátria.
VERBO SER
QUE VAI SER quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.
ANDRADE, C. D. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.
A inquietação existencial do autor com a autoimagem corporal e a sua corporeidade se desdobra em questões existenciais que tem origem:
no conflito do padrão corporal imposto contra as convicções de ser autêntico e singular.
na aceitação das imposições da sociedade seguindo a influência de outros.
na confiança no futuro, ofuscada pelas tradições e culturas familiares.
no anseio de divulgar hábitos enraizados, negligenciados por seus antepassados.
na certeza da exclusão, revelada pela indiferença de seus pares.
Texto I
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra [...]
ANDRADE, C. D. Reunião. Rio de Janeiro: Jose Olímpia, 1971 (fragmento).
Texto II
As lavadeiras de Mossoró, cada uma tem sua pedra no rio: cada pedra é herança de família, passando de mãe a filha, de filha a neta, como vão passando as águas no tempo [...]. A lavadeira e a pedra formam um ente especial, que se divide e se reúne ao sabor do trabalho. Se a mulher entoa uma canção, percebe-se que nova pedra a acompanha em surdina...
[...]
ANDRADE, C. D. Contos sem propósito. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, Caderno B, 17/7/1979
Com base na leitura dos textos, é possível estabelecer uma relação entre forma e conteúdo da palavra "pedra", por meio da qual se observa:
o emprego, em ambos os textos, do sentido conotativo da palavra "pedra".
a identidade de significação, já que nos dois textos, "pedra" significa empecilho.
a personificação de "pedra" que, em ambos os textos, adquire características animadas.
o predomínio, no primeiro texto, do sentido denotativo de "pedra" como matéria mineral solida e dura.
E a utilização, no segundo texto, do significado de "pedra" como dificuldade materializada por um objeto.
