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WorksheetsREVISÃO BERNOULLI
Total questions: 12
Worksheet time: 3600secs
47. (Enem)
O peru de Natal
O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.
ANDRADE, M. In: MORICONI, 1. Os cem melhores contos brasileiros do século. São Paulo: Objetiva, 2000. [Fragmento)
No fragmento do conto de Mário de Andrade, o tom confessional do narrador em primeira pessoa revela uma concepção das relações humanas marcada por
distanciamento de estados de espirito acentuado pelo papel das gerações.
relevância dos festejos religiosos em família na sociedade moderna.
preocupação econômica em uma sociedade urbana em crise.
consumo de bens materiais por parte de jovens, adultos e idosos.
pesar e reação de luto diante da morte de um familiar querido.
Dois parlamentos
Nestes cemitérios gerais
não há morte pessoal.
Nenhum morto se viu
com modelo seu, especial.
Vão todos com a morte padrão,
em série fabricada.
Morte que não se escolhe
e aqui é fornecida de graça.
Que acaba sempre por se impor
sobre a que já medrasse..
Vence a que, mais pessoal,
alguém já trouxesse na carne.
Mas afinal tem suas vantagens
esta morte em série.
Faz defuntos funcionais,
próprios a uma terra sem vermes.
MELO NETO, J. C. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. [Fragmento]
A lida do sertanejo com suas adversidades constitui um viés temático muito presente em João Cabral de Melo Neto. No fragmento em destaque, essa abordagem ressalta o(a)
inutilidade de divisão social e hierárquica após a morte.
aspecto desumano das cemitérios da população carente.
nivelamento do anonimato imposto pela miséria na
morte.
tom de ironia para com a fragilidade dos corpos e da terra.
indiferença do sertanejo com a ausência de seus próximos.
44. (Enem) A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas, capaz de envenenar a todos. Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência. Com a saudade evaporando pelos olhos, eu insistia em justificar a economia que administrava seus gestos. Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro, como se degolasse cada um de nós. Seis. O pai, amparado pela prateleira da cozinha, com o suor desinfetando o ar, tamanho o cheiro do álcool, reparava na fome dos filhos. Enxergava o manejo da faca desafiando o tomate e, por certo, nos pensava devorados pelo vento ou tempestade, segundo decretava a nova mulher. Todos os dias - cotidianamente havia tomate para o almoço. Eles germinavam em todas as estações. Jabuticaba, manga, laranja, floresciam cada uma em seu tempo. Tomate, não.. Ele frutificava, continuamente, sem demandar adubo além do ciúme. Eu desconhecia se era mais importante o tomate ou o ritual de cortá-lo. As fatias delgadas escreviam um ódio e só aqueles que se sentem intrusos ao amor podem tragar.
QUEIROS, B. C. Vermelho amargo. São Paulo: Cosac & Naily, 2011.
Ao recuperar a memória da infância, o narrador destaca a importância do tomate nos almoços da familia e a ação da madrasta ao prepará-lo. A insistência nessa imagem é um procedimento estético que evidencia a
saudade do menino em relação à sua mãe.
insegurança do pai diante da fome dos filhos.
raiva da madrasta pela indiferença do marido.
resistência das crianças quanto ao carinho da
madrasta.
convivência conflituosa entre o menino e a esposa do
pai.
43. (Enem)
Recusei a mão de minha filha, porque o senhor é... filho de uma escrava..
-Eu?
-O senhor é um homem de cor!... Infelizmente esta é a verdade...
Raimundo tornou-se lívido. Manoel prosseguiu, no fim
de um silêncio:
-Já vé o amigo que não é por mim que lhe recusei Ana Rosa, mas é por tudo! A familia de minha mulher sempre foi muito escrupulosa a esse respeito, e como ela é toda a sociedade do Maranhão! Concordo que seja uma asneira; concordo que seja um prejuízo tolo! O senhor porém não imagina o que é por cá a prevenção contra os mulatos!... Nunca me perdoariam um tal casamento; além do que, para realizá-lo, teria que quebrar a promessa que fiz a minha sogra, de não dar a neta senão a um branco de lei, português ou descendente direto de portugueses!
AZEVEDO, A. O mulato. São Paulo: Escala, 2008.
Influenciada pelo ideário cientificista do Naturalismo, a obra destaca o modo como o mulato era visto pela sociedade de fins do século XIX. Nesse trecho, Manoel traduz uma concepção em que a
miscigenação racial desqualificava o individuo.
condição económica anulava os conflitos raciais.
discriminação racial era condenada pela sociedade.
escravidão negava o direito da negra à maternidade.
união entre mestiços era um risco à hegemonia do brancos.
42. (Enem)
Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau de arara
Quero, por isso, falar com você
de homem para homem
apoiar-me em você
oferecer-lhe meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio está ai matando
...
Homem comum, igual
a você,
Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonhos e margaridas.
GULLAR, F Dentro da noite veloz. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013. [Fragmento)
No poema, ocorre uma aproximação entre a realidade social e o fazer poético, frequente no Modernismo. Nessa aproximação, o eu lírico atribui à poesia um caráter de
agregação construtiva e poder de Intervenção na ordem Instituída.
força emotiva e capacidade de preservação da memória social.
denúncia retórica e habilidade para sedimentar sonhos e utopias.
ampliação do universo cultural e intervenção nos valores humanos
identificado com o discurso masculino e questionamento dos temas líricos.
39. (Enem-2018)
O trabalho não era penoso: colar rótulos, meter vidros em caixas, etiquetá-las, selá-las, envolvê-las em papel celofane, branco, verde, azul, conforme o produto, separá-las em dúzias.. Era fastidioso. Para passar mais rapidamente as oito horas havia o remédio: conversar. Era proibido, mas quem la atrás de proibições? O patrão vinha? Vinha o encarregado do serviço? Calavam o bico, aplicavam-se ao trabalho. Mal viravam as costas, voltavam a taramelar. As mãos não paravam, as linguas não paravam. Nessas conversas intermináveis, de linguagem solta e assuntos crus, Leniza se completou. Isabela, Afonsina, Idália, Jurete, Deolinda- foram mestras. O mundo acabou de se desvendar. Leniza perdeu o tom ingênuo que ainda podia ter. Ganhou um jogar de corpo que convida, um quebrar de olhos que promete tudo, à toa, gratuitamente. Modificou-se o timbre de sua voz. Ficou mais quente. A própria inteligência se transformou. Tornou-se mais aguda, mais trepidante
REBELO, M. A estrela sobe. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.
O romance, de 1939, traz à cena tipos e situações que espelham o Rio de Janeiro daquela década. No fragmento, o narrador delineia esse contexto centrado no
julgamento da mulher fora do espaço doméstico.
relato sobre as condições de trabalho no Estado Novo.
destaque a grupos populares na condição de protagonistas.
processo de inclusão do palavrão nos hábitos de linguagem.
vínculo entre as transformações urbanas e os papéis femininos.
38. (Enem-2019) As montanhas correm agora, lá fora, umas atrás das outras, hostis e espectrais, desertas de vontades novas que as humanizem, esquecidas já dos antigos homens lendários que as povoaram e dominaram.
Carregam nos seus dorsos poderosos as pequenas cidades decadentes, como uma doença aviltante e tenaz, que se aninhou para sempre em suas dobras. Não podendo matá-las de todo ou arrancá-las de si e vencer elas resignam-se e as ocultam com sua vegetação: escura e densa, que lhes serve de coberta, e resguardam o seu sonho imperial de ferro e ouro.
PENNA, C. Fronteira. Rio de Janeiro: Artium, 2001.
As soluções de linguagem encontradas pelo narrador projetam uma perspectiva lírica da paisagem contemplada. Essa projeção alinha-se ao poético na medida em que
explora a identidade entre o homem e a natureza.
reveste o inanimado de vitalidade e ressentimento.
congela no tempo a prosperidade de antigas cidades.
destaca a estética das formas e das cores da
paisagem.
captura o sentido da ruina causada pela extração mineral.
36. (Enem-2019)
-Não digo que seja uma mulher perdida, mas recebeu uma educação muito livre, saracoteia sozinha por toda a cidade e não tem podido, por conseguinte, escapar A implacável maledicência dos fluminenses. Demais, está habituada ao luxo, ao luxo da rua, que é o mais caro; em casa arranjam-se ela e a tia sabe Deus como. Não é mulher com quem a gente se case. Depois, lembra-te que apenas começas e não tens ainda onde cair morto. Enfim, és um homem: faze o que bem te parecer.
Essas palavras, proferidas com uma franqueza por tantos motivos calaram no ânimo do bacharel. Intimamente ele estimava que o velho amigo de seu pai o dissuadisse de requestar a moça, não pelas consequências morais do casamento, mas pela obrigação, que este lhe impunha, de satisfazer uma divida de vinte contos de réis, quando, apesar de todos os seus esforços, não conseguira até então pôr de parte nem o terço daquela quantia.
AZEVEDO, A. A divida. Disponível em: www.dominiopublico. gov.br. Acesso em: 20 ago. 2017.
O texto, publicado no fim do século XIX, traz à tona representações sociais da sociedade brasileira da época. Em consonância com a estética realista, traços da visão critica do narrador manifestam-se na
caracterização pejorativa do comportamento da mulher solteira.
concepção irônica acerca dos valores morais inerentes
à vida conjugal.
contraposição entre a idealização do amor e as imposições do trabalho.
expressão caricatural do casamento pelo viés do sentimentalismo burguês.
sobreposição da preocupação financeira em relação ao sentimento amoroso.
35. (Enem-2019) Há casais que jogam com os sonhos como
se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada.
O jogo de tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo como bolha de sabão. O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha, sempre perde.
Já no frescobol é diferente. O sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois sabe-se que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. Assim cresce o amor. Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...
ALVES, R. Tênis X Frescobol. As melhores crônicas de Rubem Alves. Campinas: Papirus, 2012.
O texto de Rubem Alves faz uma analogia entre dois jogos que utilizam raquetes e as diferentes formas de as pessoas se relacionarem afetivamente, de modo que
o tênis indica um jogo em que a cooperação predomina, o que representa o distanciamento na relação entre as pessoas.
o tênis indica um jogo em que a competição é predominante, o que representa um sonho comum no relacionamento entre pessoas.
o frescobol indica um jogo em que a cooperação prevalece, o que simboliza o compartilhamento de sonhos entre as pessoas no relacionamento.
o frescobol indica um jogo em que a competição prevalece, o que simboliza um relacionamento em que uma pessoa busca destruir o sonho da outra.
o frescobol e o tênis indicam, respectivamente, situações de competição e cooperação, o que ilustra os diferentes sonhos das pessoas no relacionamento.
31. (Enem 2019)
Biografia de Pasárgada
Quando eu tinha meus 15 anos e traduzia na classe de grego de D. Pedro II Ciropédia fiquei encantado com o nome dessa cidadezinha fundada por Ciro, o Antigo, nas montanhas do sul da Pérsia, para lá passar os verões. A minha imaginação de adolescente começou a trabalhar, e vi Pasárgada e vivi durante alguns anos em Pasárgada.
Mais de vinte anos depois, num momento de profundo desanimo, saltou-me do subconsciente este grito de evasão: "Vou-me embora p'ra Pasárgada Imediatamente senti que era a célula de um poema. Peguei do lápis e do papel, mas o poema não veio. Não pensei mais nisso. Uns cinco anos mais tarde, o mesmo grito de evasão nas mesmas circunstâncias. Desta vez, o poema saiu quase ao correr da pena. Se há belezas em "Vou-me embora pra Pasárgada", elas não passam de acidentes. Não construí o poema, ele construiu-se em mim, nos recessos de subconsciente, utilizando as reminiscências da Infância -as historias que Rosa, minha ama-seca mulata, me contava, o sonho jamais realizado de uma bicicleta etc.
BANDEIRA, Merano de Pasargada São Paulo: Global, 2012
O texto é um depoimento de Manuel Bandeira a respeito da criação de um de seus poemas mais conhecidos. De acordo com esse depoimento, o fazer poético em "Vou-me embora pra Pasárgada!"
acontece de maneira progressiva, natural e pouco intencional
decorre de uma inspiração fulminante, num momento de extrema emoção.
ratifica as informações do senso comum de que Pasárgada é a representação de um lugar utópico.
resulta das mais fortes lembranças da juventude do
poeta e de seu envolvimento com a literatura grega.
remete a um tempo da vida de Manuel Bandeira marcado por desigualdades sociais e econômicas.
18. ENEM
Grande desejo
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
PRADO, A. Bagagem. 33. ed. Rio de Janeiro: Record, 2012. p. 10.
O texto traz em relevo as funções emotiva, metalinguística e poética. Seu caráter metalinguístico justifica-se principalmente pela
abordagem do cotidiano de uma mulher que, apesar
de comum, também é poetisa.
aproximação da poesia às atitudes diárias de uma
mulher comum.
enumeração das atitudes prosaicas de uma mulher
que se denomina poetisa.
presença de uma voz feminina que expressa seus
sentimentos mais triviais.
significação que o eu lírico feminino dá à produção
do seu texto poético.
19. ENEM
Namorados
O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
-Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo,
com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
- Você não sabe quando a gente é criança e de repente
vê uma lagarta listada?
A moça se lembrava:
A gente fica olhando....
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
- Antônia, você parece uma lagarta listada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
- Antônia, você é engraçada, você parece louca.
BANDEIRA, M. Libertinagem & Estrela da Manhã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
No poema anterior, de Manuel Bandeira, o processo de descoberta da existência do amor pelo eu lírico é
artificial, pois utiliza recursos de um discurso que,
na realidade, tem como objetivo enganar Antônia.
curioso, na medida em que expressa um encantamento pouco convencional por Antônia, rompendo com a continuidade narrativa.
incoerente, pois não expressa, em suas palavras,
o sentimento de paixão próprio de quem ama.
paradoxal, uma vez que não revela o temperamento ofensivo do jovem em relação à Antônia.
tradicional, já que demonstra um deslumbramento arrebatador em relação à Antônia, que é idealizada.
