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Classicismo/Renascimento

Total questions: 20

Worksheet time: 37mins

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1.

O Classicismo foi um período literário em que a cultura greco-romana foi valorizada. A poesia desse período tem por objetivo


a)

trabalhar o texto poético em toda a sua potencialidade formal.

b)

alcançar a expressividade por meio do uso de figuras de linguagem.

c)

cantar o individualismo e o a melancolia diante da existência.

d)

a pureza das formas e o equilíbrio como ideal estético.

e)

a quebra das regras formais e a reflexão sobre o indivíduo.

2.

Nos escritos de Francesco Petrarca (1304-1374) floresce a ideia do Renascimento. Enquanto a historiografia medieval dividia a história em antes e depois do nascimento de Cristo, Petrarca considera os séculos que sucederam a derrocada do império romano ocidental e o momento contemporâneo a ele como um período de retrocesso, obscurantismo, barbárie e decadência. [...] O esquema segundo o qual entre a grandeza dos antigos e o seu renascimento, no século XV, transcorre um período intermédio de mil anos, influenciou profundamente humanistas, historiadores, filósofos e artistas da época, e segue vivo, de certa forma, até os dias atuais. Naquele contexto, o termo rinascita, renascimento, tornou-se corrente, na medida em que pensadores contemporâneos passavam a considerar a era que viviam como o receptáculo da longa tradição clássica, a qual, ignorada ou vilipendiada ao longo de séculos, podia finalmente reencontrar a luz do dia. No campo das letras, organizava-se e editava-se febrilmente textos latinos, mas traduzia-se também massivamente obras gregas, sobretudo Platão.

BERBARA, Maria. "Introdução" In: Renascimento Italiano: Ensaios e traduções. Rio de Janeiro: Nau edições, 2010, p. 11-12.


Os períodos históricos conhecidos como Idade Média e Renascimento podem ser divididos, considerando-se a periodização das escolas literárias, em 


a)

Humanismo, Classicismo e Barroco.

b)

Trovadorismo, Humanismo e Classicismo.

c)

Classicismo, Barroco e Arcadismo.

d)

 Trovadorismo, Humanismo e Barroco.

e)

Arcadismo, Romantismo e Simbolismo

3.

Quando, torcendo a chave mysteriosa

Que os cancellos fechava do Oriente,

O Gama abriu a nova terra ardente

Aos olhos da companha valorosa,

 

Talvez uma visão resplandecente

Lhe amostrou no futuro a sonorosa

Tuba, que cantaria a acção famosa

Aos ouvidos da própria e extranha gente.

 

E disse: «Se já n’outra, antiga edade,

«Troya bastou aos homens, ora quero

«Mostrar que é mais humana a humanidade.

 

Pois não serás heroe de um canto fero,

«Mas vencerás o tempo e a imensidade

«Na voz de outro moderno e brando Homero.»

ASSIS, Machado de. "Camões" In: Poesias Completas. Rio de Janeiro: Garnier, 1901, p. 323.

O poema de Machado de Assis presta homenagem a Luís de Camões. Nos versos, o eu lírico faz menção ao poema épico Os Lusíadas,

a)

no episódio do Velho do Restelo.

b)

no episódio de Inês de Castro

c)

cujo herói é Vasco da Gama

d)

em sua Proposição.

e)

no episódio do Gigante Adamastor.

4.

Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prémio pretendia.

 

Os dias, na esperança de um só dia,

passava, contentando se com vê la;

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.

 

Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assi negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida;

 

começa de servir outros sete anos,

dizendo: — Mais servira, se não fora

para tão longo amor tão curta a vida.

CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000164.pdf>. Acesso em: 31 mar. 2021.

 

O classicismo tem a sua chave nos princípios da unidade, da economia da forma e no equilíbrio dos sentidos. No soneto, o equilíbrio evidencia-se para além da forma, quando propõe conciliar espírito e amor, como demonstra o verso

a)

"lhe fora assi negada a sua pastora".

b)

"mas não servia ao pai, servia a ela".

c)

"como se a não tivera merecida".

d)

"para tão longo amor tão curta a vida".

e)

"Vendo o triste pastor que com enganos".

5.

[...] não correspondência entre os anseios, os valores, as razões e a realidade da vida social e material; problema tanto mais árduo quanto a filosofia platônica assenta sobre o mundo sobre as Ideias e delas faz tudo derivar. Este problema sente-o compenetradamente o Poeta, está no âmago de seu próprio existir e não em simples congeminações sobre a matéria objetiva, como são os tópicos filosóficos ou as convenções sociais. O desconcerto do mundo reside na própria relação entre ele, como pessoa paradigmática, e um destino com que ele se encontra e que, ao mesmo tempo, lhe é opaco.

LOPES, Oscar; SARAIVA, Antônio José. História da literatura portuguesa. Porto: Porto Editora, 1955, p. 323.

 

Os versos que melhor expressam o tema camoniano do desconcerto do mundo são

a)

Ofereceis-me alegria,

tendo-me já cego e mouco:

é baixeza aceitar pouco

quem tanto vos merecia.

b)

Mas inda isso de mim cuidar não posso,

de estar muito soberbo com ser vosso.

c)

Os bons vi sempre passar

no mundo graves tormentos;

e, para mais m'espantar,

os maus vi sempre nadar

em mar de contentamentos.

d)

Jura Amor que brandura de vontade

causa o primeiro efeito; o pensamento

endoudece, se cuida que é verdade.

e)

A Morte, que da vida o nó desata,

os nós, que dá o Amor, cortar quisera

na Ausência, que é contr' ele espada fera,

e co Tempo, que tudo desbarata.

6.

Eu cantarei de amor tão docemente,

Por uns termos em si tão concertados,

Que dois mil acidentes namorados

Faça sentir ao peito que não sente.

 

Farei que amor a todos avivente,

Pintando mil segredos delicados,

Brandas iras, suspiros magoados,

Temerosa ousadia e pena ausente.

 

Também, Senhora, do desprezo honesto

De vossa vista branda e rigorosa,

Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

 

Porém, pera cantar de vosso gesto

A composição alta e milagrosa

Aqui falta saber, engenho e arte.

CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos. Disponível em: <http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v004.txt>. Acesso em: 31 mar. 2021.

 

No soneto de Camões, a poesia é fruto de reflexão formal. Nos versos acima evidencia-se a diferença entre sentimento amoroso e

a)

entrega-se ao amor romântico inspirado pela beleza que ele vê no rosto de sua amada.

b)

reflete sobre como a linguagem possibilita exaltar a beleza que ele vê no rosto de sua amada.

c)

confessa-se capaz de traduzir em linguagem a beleza que ele vê no rosto de sua amada.

d)

confessa-se incapaz de traduzir em linguagem a beleza que ele vê no rosto de sua amada.

e)

seduz a sua amada utilizando a linguagem como instrumento de expressão lírica.

7.

Observe o quadro de Ticiano (1473/1490-1576). Nele, o pintor italiano reflete as seguintes concepções de mundo próprias do Renascimento:

a)

desproporção e religiosidade.

b)

racionalidade e melancolia.

c)

desconcerto e exagero.

d)

racionalidade e equilíbrio.

e)

formalidade e cubismo.

8.

«Nós outros, sem a vista alevantarmos

Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,

Por nos não magoarmos, ou mudarmos

Do propósito firme começado,

Determinei de assi nos embarcarmos,

Sem o despedimento costumado,

Que, posto que é de amor usança boa,

A quem se aparta, ou fica, mais magoa.

 

«Mas um velho, d'aspeito venerando,

Que ficava nas praias, entre a gente,

Postos em nós os olhos, meneando

Três vezes a cabeça, descontente,

A voz pesada um pouco alevantando,

Que nós no mar ouvimos claramente,

Cum saber só d'experiências feito,

Tais palavras tirou do experto peito:

 

- «Ó glória de mandar, ó vã cobiça

Desta vaidade a quem chamamos Fama!

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Disponível em <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1870>. Acesso em: 31 mar. 2021.

 

O poema épico Os Lusíadas se propõe a cantar a glória e as façanhas do povo português e de Portugal, mas não impede que transpareçam alguns fatos e argumentos contraditórios a esse espírito empreendedor, expansionista e “corajoso” de Portugal do século XVI. O episódio em destaque pode ser lido como uma

a)

crítica ao expansionismo português.

b)

celebração dos perigos e aventuras das navegações.

c)

queixa isolada das populações da praia de Restelo.

d)

despedida dos familiares que perderam seus entes queridos.

e)

ilustração do conservadorismo português.

9.

No tempo que de Amor viver soía,

nem sempre andava ao remo ferrolhado;

antes agora livre, agora atado,

em várias flamas variamente ardia.

 

Que ardesse num só fogo, não queria

O Céu, porque tivesse exprimentado

que nem mudar as causas ao cuidado

mudança na ventura me faria.

 

E se algum pouco tempo andava isento,

foi como quem co peso descansou,

por tornar a cansar com mais alento.

 

Louvado seja Amor em meu tormento,

pois para passatempo seu tomou

este meu tão cansado sofrimento!

CAMÕES, Luís de. Sonetos. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=18721870> Acesso em: 31 mar. 2021.

 

O soneto é a forma poética celebrada por Camões por permitir estruturalmente uma reflexão. Nas duas primeiras estrofes o eu lírico expõe uma questão, para concluí-la nas duas estrofes seguintes. A conjunção que indica o início da conclusão está presente

a)

no primeiro verso do segundo quarteto.

b)

no primeiro verso do primeiro quarteto.

c)

no primeiro verso do segundo terceto.

d)

no segundo verso do primeiro terceto.

e)

no primeiro verso do primeiro terceto.

10.

No soneto atinge o poeta uma admirável e rara variedade. Deve advertir-se que, pela sua brevidade e pela sua estrutura, o soneto se presta a exercícios de engenho, como o vilancete e outras formas tradicionais; embora, por outro lado, a sua disposição em duas quadras e dois tercetos favoreça um discurso em tese e antítese, seguidas de conclusão e desfecho sentencioso; e, por outro ainda, essa mesma brevidade seja apropriada a uma grande concentração emocional.

LOPES, Oscar; SARAIVA, Antônio José. História da literatura portuguesa. Porto: Porto Editora, 1955, p. 317.

 

Apesar de ter se notabilizado por seus sonetos, Luís de Camões também é autor de poemas na forma de Cantiga, forma poética composta por

a)

redondilhas, de três a quatro sílabas poéticas

b)

redondilhas, de cinco a sete sílabas poéticas.

c)

versos alexandrinos, de doze sílabas poéticas.

d)

decassílabos, de dez sílabas poéticas.

e)

versos brancos, sem sílabas poéticas.

11.

Ele não cansa de nos dizer que o amor – o amor sensual – não é pecado ou dissipação, mas uma demanda natural, sendo, portanto, bom. O amor, além disso, é a força motriz de todo pensamento nobre e de toda generosidade.

AUERBACH, Erich. A novela no início do renascimento. Itália e França. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 43.

 

As considerações de Eric Auerbach transcritas acima referem-se à obra de Boccaccio e revelam a mudança de perspectiva quanto ao papel do ser humano na sociedade renascentista, a qual, embora ainda muito calcada na religiosidade, apresenta

a)

um deslocamento do plano espiritual para o terreno.

b)

um deslocamento do plano terreno para o espiritual.

c)

a confirmação da centralidade do plano espiritual.

d)

a confirmação de uma visão de mundo apartada da matéria.

e)

a confirmação de uma visão de mundo apartada da matéria.

12.

texto 1

[Agora que o céu e a terra e o vento cala(m)-se

e os animais e os pássaros o sono refreia,

[A] Noite seu carro estrelado passeia

e no seu leito o mar sem onda jaz,

 

velo, penso, ardo, choro; e quem me consome

sempre me está defronte para minha doce pena:

guerra é o meu estado, de ira e de dor plena,

e só nela pensando tenho alguma paz.

 

Assim de uma única clara fonte viva

emana(m) o doce e o amargo em que me nutro;

uma única mão me cura e me fere;

 

e para que o meu martírio não chegue a termo,

mil vezes por dia morro e mil renasço,

tanto de minha salvação estou distante.]

PETRARCA. Soneto. Trad. De Murilo Marcondes de Moura In: Reflexão como resistência. Homenagem a Alfredo Bosi. MASSI, Augusto et al (Org.). São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 470.

TEXTO 2

Quando os astros do meio do caminho

Ao Ocidente passam, declinando,

O campo todo cala, e o passarinho

Entre as folhas dos ramos descansando,

Todo animal e peixe no seu ninho,

Quantos brenhas ou lagos habitando,

Na muda noite ao sono estão sujeitos,

Davam alívio a seus cansados peitos.

 

Porém não a infelice Dido,

Que descansar não pode um só momento,

Nem nos olhos ou peito combatido

Pode à noite dar grato acolhimento:

Os cuidados se dobram, e, acendido

De novo, amor lhe causa grã tormento.

Num mar se sente, de iras engolfada.

E assim diz entre si indeterminada:

VIRGÍLIO. "Eneida". Trad. de João Franco Barreto In: Reflexão como resistência. Homenagem a Alfredo Bosi. MASSI, Augusto et al (Org.). São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 474.



O poeta italiano Francesco Petrarca (1304-1374), assim como Dante Alighieri (1265-1321), foi dedicado leitor dos clássicos latinos. O soneto citado dialoga com uma passagem extraída da Eneida, do poeta latino Virgílio, que descreve o amor trágico da Rainha Dido, de Cartago, pelo herói Enéas. As relações estabelecidas entre os dois textos são um exemplo da influência da cultura latina durante o Renascimento, marcado pela

a)

metonímia.

b)

intertextualidade.

c)

metáfora.

d)

citação.

e)

cópia.

13.

As novas descobertas que tinham sido feitas pelos artistas da Itália e Flandres no começo do século XV tinham produzido um frêmito de emoção em toda a Europa. Pintores e patrocinadores estavam igualmente fascinados pela ideia de que a arte pudesse ser usada não só para contar a História Sagrada de um modo comovente, mas servisse também para espelhar um fragmento do mundo real. Talvez o resultado mais imediato dessa grande revolução na arte foi os artistas começarem por toda parte a realizar experimentos e a buscar novos e surpreendentes efeitos.

GOMBRICH, E. H. A História da arte. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988, p.183.

 

A revolução de que fala Gombrich (1909-2001) no excerto citado, compreendida como a busca por novos efeitos e por novas possibilidades de representação da realidade, marca o período histórico conhecido como Renascimento e

a)

é um sinal da coexistência do período com a visão de mundo da Idade Média.

b)

evidencia a continuidade da visão de mundo presente na Idade Média.

c)

marca a ruptura com a visão de mundo da Idade Média.

d)

assinala a apreensão da realidade de acordo com a História Sagrada.

e)

é mostra da fuga da realidade, segundo os preceitos artísticos do período.

14.

Pra correr melhor água iça o batel

do engenho meu seu velame, que o mar

atrás de si abandona tão cruel;

 

ora o segundo reino vou cantar

onde a alma humana purga-se e auspicia

tornar-se digna de ao céu se elevar.

 

Mas ressurge aqui a morta poesia,

desde que a ti pertenço, ó musa,

e aqui Calíope, co'a mesma harmonia,

 

de novo surja, e meu canto conduza,

co'a qual cada infeliz Pega admitira,

ouvindo-a, já desesperar escusa.

 

A amena cor de oriental safira

que se formava no sereno leito

do céu, límpido até a sua extrema tira,

 

aos olhos meus reconduziu proveito,

logo que achei-me fora da aura morta

que me havia contristado a vista e o peito.

ALIGHIERI, Dante. A divina comédia: Purgatório. Trad. de Ítalo Eugenio Mauro. Rio de Janeiro: Editora 34, 2019, p. 13-14.

 

No primeiro Canto da segunda parte da Divina Comédia, Dante e Virgílio se preparam para adentrar o Purgatório. Segundo o poema, o Purgatório é

a)

onde a musa Calíope se encontra e busca inspirar Dante "co' a mesma harmonia".

b)

o local em que ressurge "a morta poesia", sendo necessária a presença do poeta Virgílio.

c)

onde a alma humana "purga-se", assim esperando retornar ao local de onde vieram os poetas.

d)

onde a alma humana "purga-se", assim esperando "tornar-se digna de ao céu se elevar".

e)

onde a alma humana "purga-se" padecendo de seus pegados, antes de adentrar o Inferno.

15.

Dom Quixote é provavelmente o primeiro romance "moderno", se entendermos por modernidade o movimento de uma literatura que, perpetuamente em busca de si mesma, se interroga, se questiona, fazendo de suas dúvidas e sua fé a respeito da própria mensagem o tema de seus relatos.

ROBERT, Marthe. Romance das origens, origens do romance. São Paulo: Cosac Naify, p. 11.

 

Dom Quixote trata de parodiar as novelas de cavalaria, assinalando os limites entre heroísmo e fantasia, real e imaginário e evidenciando

a)

o fim de um gênero literário, as novelas de cavalaria, e o início de um período histórico, a Idade Moderna.

b)

tanto o fim de um gênero literário, as novelas de cavalaria, quanto o de um período histórico, o Mercantilismo.

c)

tanto o fim de um gênero literário, o trovadorismo, quanto o de um período histórico, a Idade Média.

d)

tanto o fim de um gênero literário, o romance, quanto o de um período histórico, o Clássico.

e)

o fim de um gênero literário, as novelas de cavalaria, e o início dos relatos heroicos do romantismo.

16.

No terceiro dia recebi uma carta de Ângela. Pedia-me que lhe perdoasse o passo que dera; que uma paixão nova e delirante a havia guiado, e que, se viesse a arrepender-se, seria essa a minha vingança. Quando li a carta, tive ímpeto de ir ter com ela e esganá-la; mas o ímpeto passou, e a dor desfez-se em reflexões. Poucos dias antes, a bordo, um engenheiro inglês que vinha do Rio Grande para esta Corte, emprestara-me um volume truncado de Shakespeare. Pouco me restava do pouco inglês que aprendi; fui soletrando como pude, e uma frase que ali achei fez-me estremecer, na ocasião, como uma profecia; recordei-a depois, quando Ângela me escreveu. "Ela enganou seu pai, diz Brabantio a Otelo, há de enganar-te a ti também." Era justo; pelo menos, era explicável.

ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira/MEC, 1977, p. 211.

 

Helena é um romance escrito por Machado de Assis em 1876. No trecho em destaque, Salvador, pai biológico de Helena, revela sua desventura amorosa citando a tragédia de Otelo, escrita pelo dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616). Na peça, Otelo, envenenado pelas intrigas de Iago, assassina sua esposa Desdêmona. Ao utilizar a tragédia Otelo em seu romance, Machado faz paralelo entre

a)

Salvador e Helena, pois ambos foram vítimas da traição de Ângela.

b)

ele e Shakespeare, pois ambos fizeram do ciúme um tema literário.

c)

Helena e Desdêmona, pois ambas cometeram adultério.

d)

Salvador e Otelo, pois ambos se deixaram contaminar pelo ciúme.

e)

Salvador e Otelo, pois ambos se deixaram levar por sua paixão.

17.

[...]

SEYTON – São gritos de mulheres, meu bom Rei.

[Sai Seyton.]

MACBETH – Ia quase me esquecendo do sabor que tem o medo. Já se foi o tempo em que me teria gelado os sentidos ouvir um grito na noite. Era tempo em que meu couro cabeludo teria se eriçado com um relato lúgubre, como se vivo estivesse cada fio de cabelo meu. Mas empanturrei-me de horror, e pavores que se familiarizaram com minhas ideias de carnificina agora já não fazem nem mesmo piscar.

[Volta Seyton.]

SEYTON – A Rainha, meu Senhor, está morta.

MACBETH – Ela teria de morrer, mais cedo ou mais tarde. Morta. Mais tarde haveria um tempo para essa palavra. Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia, até a última sílaba do registro dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco – faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado.

SHAKESPAEARE, William. Macbeth. Trad. de Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegra: LPM, 2018, p. 115-116.

 

Após uma sequência de mortes, assassinatos e conspirações para manter-se no trono que conquistou assassinando o rei, Macbeth nada mais tem a temer. Com a morte da rainha, Lady Macbeth, sua conclusão é a de que a vida

a)

é absurda, uma chama breve.

b)

deve ser vivida, apesar da brevidade.

c)

é repleta de som e fúria, perene.

d)

é uma chama breve, como o teatro.

e)

é tudo aquilo que o motivou a lutar.

18.

Leia as afirmações feitas a seguir, sobre Dom Quixote de La Mancha, romance de Miguel de Cervantes:

 

I – Tem como característica o humor, fruto do embate entre ilusão e realidade.

II – Narra as desventuras do Cavaleiro da Triste Figura, personagem que simboliza o descompasso entre a Idade Média e a época Moderna.

III – Teve uma continuação em 1615, escrita pelo próprio Cervantes, além de diversas versões apócrifas.

IV – Dom Quixote é uma personagem cuja obsessão por novelas de cavalaria faz crer em um mundo idealizado, marcado pela ética cavaleiresca.

V – É um dos livros mais lidos da literatura inglesa, superado apenas por Shakespeare.

 

Estão corretas apenas as afirmativas

a)

I, II, III e V

b)

II, III e IV

c)

II e III

d)

 I, III e V

e)

I, II, III e IV

19.

[...]

HAMLET

Ser ou não ser: eis a questão:

Saber se é mais nobre na mente suportar

As pedradas e flechas da fortuna atroz

Ou tomar armas contra as vagas de aflições

E, ao afrontá-las, dar-lhes fim. Morrer, dormir.

Só isso. E dizer que com o sono damos fim

À nossa angústia e aos mil assaltos naturais

Que a carne herdou: sim, eis uma consumação

Que cumpre ardentemente ansiar. Morrer, dormir;

Dormir, talvez sonhar – sim, aí está o entrave:

Pois no sono da morte os sonhos que virão,

Depois de repudiado o vórtice mortal,

Nos forçam a refletir. E é bem esse reparo

Que dá à calamidade uma vida tão longa.

Pois quem suportaria o açoite e o esgar do mundo,

A afronta do opressor e o insulto do soberbo,

O baque do amor ferido, o lento da lei

A insolência do mando e este bruto achincalhe

Que o mérito paciente recebe do inepto,

Se pudesse ele próprio quitar sua quietude

Com um reles punhal. [...]

SHAKESPEARE, William. Hamlet. São Paulo: Companhia das Letras/Penguin, 2015, p. 111.

 

No famoso monólogo de Hamlet, o príncipe encontra-se em um dilema. A questão de vida e morte nele presente ultrapassou o espaço da trama e em nossa cultura tomou contornos de uma questão ética-moral que podemos entender como

a)

buscar a reflexão ao invés da ação desmedida.

b)

abster-se de um posicionamento moral religioso

c)

sempre posicionar-se diante de questões morais.

d)

nunca se posicionar diante de questões morais.

e)

tomar ou não tomar posição diante de um acontecimento.

20.

Dois amores — de paz e desespero —

Eu tenho que me inspiram noite e dia:

Meu anjo bom é um homem puro e vero;

O mau, uma mulher de tez sombria.

 

Para levar a tentação a cabo,

O feminino atrai meu anjo e vive

A querer transformá-lo num diabo,

Tentando-lhe a pureza com a lascívia.

 

Se há de meu anjo corromper-se em demo

Suspeito apenas, sem dizer que seja;

Mas longe ambos de mim, e amigos, temo

 

Que o anjo no fogo já do outro esteja.

         Nunca sabê-lo, embora desconfie,

         Até que o mau meu anjo contagie.

SHAKESPEARE, William. “Soneto”. In: 50 sonetos. Trad. de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015, p. 144.

 

No soneto de Shakespeare é possível notar o sujeito lírico diante de uma escolha entre o angélico e o diabólico, explicitado nos versos

a)

O feminino atrai meu anjo e vive

A querer transformá-lo num diabo,

b)

Meu anjo bom é um homem puro e vero;

O mau, uma mulher de tez sombria.

c)

Se há de meu anjo corromper-se em demo

Suspeito apenas, sem dizer que seja;

d)

Mas longe ambos de mim, e amigos, temo

Que o anjo no fogo já do outro esteja.

e)

Nunca sabê-lo, embora desconfie,

Até que o mau meu anjo contagie.