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Modernismo 1ª fase

Total questions: 7

Worksheet time: 21mins

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1.

Vei, a Sol


Ora o pássaro careceu de fazer necessidade, fez e o herói ficou escorrendo sujeira de urubu.

Já era de madrugadinha e o tempo estava inteiramente frio. Macunaíma acordou tremendo,

todo lambuzado. Assim mesmo examinou bem pedra mirim da ilhota para vê si não havia

alguma cova com dinheiro enterrado. Não havia não. Nem a correntinha encantada de prata que indica pro escolhido, tesouro de holandês. Havia só as formigas jaquitaguas ruivinhas.

Então passou Caiuanogue, a estrela da manhã. Macunaíma já meio enjoado de tanto viver pediu

pra ela que o carregasse pro céu. Caiuanogue foi se chegando porém o herói fedia muito.

— Vá tomar banho! — ela fez. E foi-se embora. Assim nasceu a expressão “Vá tomar banho”

que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus.


(ANDRADE, M. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008)


O fragmento de texto faz parte do capítulo VII, intitulado “Vei, a Sol”, do livro Macunaíma, de Mário de Andrade, pertencente à primeira fase do Modernismo brasileiro. Considerando a linguagem empregada pelo narrador, é possível identificar:

a)

uso da linguagem coloquial e de temáticas do lendário brasileiro como meio de valorização da cultura popular nacional.

b)

ausência de linearidade no tratamento do tempo, recurso comum ao texto narrativo da

primeira fase modernista.

c)

referência à fauna como meio de denunciar o primitivismo e o atraso de algumas regiões do

país.

d)

descrição preconceituosa dos tipos populares brasileiros, representados por Macunaíma e

Caiuanogue.

e)

resquícios do discurso naturalista usado pelos escritores do século XIX.

2.

Cena

O canivete voou

E o negro comprado na cadeia

Estatelou de costas

E bateu coa cabeça na pedra

(ANDRADE, O. Pau-brasil. São Paulo: Globo, 2001)

O Modernismo representou uma ruptura com os padrões formais e temáticos até então vigentes na literatura brasileira. Seguindo esses aspectos, o que caracteriza o poema Cena como modernista é o(a):

a)

construção linguística por meio de neologismo.

b)

estabelecimento de um campo semântico inusitado.

c)

configuração de um sentimentalismo conciso e irônico.

d)

subversão de lugares-comuns tradicionais.

e)

uso da técnica de montagem de imagens justapostas.

3.

Camelôs

Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:

O que vende balõezinhos de cor

O macaquinho que trepa no coqueiro

O cachorrinho que bate com o rabo

Os homenzinhos que jogam boxe

A perereca verde que de repente dá um pulo

que engraçado

E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão

coisa alguma.

Alegria das calçadas

Uns falam pelos cotovelos:

- "O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho,

vai buscar um pedaço de banana para eu acender o charuto.

Naturalmente o menino pensará: Papai está malu...”

Outros, coitados, têm a língua atada.

Todos porém sabem mexer nos cordéis como o tino ingênuo de demiurgos de inutilidades.

E ensinam no tumulto das ruas os mitos heroicos da meninice...

E dão aos homens que passam preocupados ou tristes uma lição de infância.


(BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira.

Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007)


Uma das diretrizes do Modernismo foi a percepção de elementos do cotidiano como matéria de

inspiração poética. O poema de Manuel Bandeira exemplifica essa tendência e alcança expressividade porque:

a)

realiza um inventário dos elementos lúdicos tradicionais da criança brasileira.

b)

promove um reflexão sobre a realidade de pobreza dos centros urbanos.

c)

traduz em linguagem lírica o mosaico de elementos de significação corriqueira

d)

introduz a interlocução como mecanismo de construção de uma poética nova.

e)

constata a condição melancólica dos homens distantes da simplicidade infantil.

4.

Sambinha

Vêm duas costureirinhas pela rua das Palmeiras.

Afobadas braços dados depressinha

Bonitas, Senhor! que até dão vontade pros homens da rua.

As costureirinhas vão explorando perigos...

Vestido é de seda.

Roupa-branca é de morim.

Falando conversas fiadas

As duas costureirinhas passam por mim.

— Você vai?

— Não vou não!

Parece que a rua parou pra escutá-las.

Nem trilhos sapecas

Jogam mais bondes um pro outro.

E o Sol da tardinha de abril

Espia entre as pálpebras sapiroquentas de duas

nuvens.

As nuvens são vermelhas.

A tardinha cor-de-rosa.

Fiquei querendo bem aquelas duas costureirinhas...

Fizeram-me peito batendo

Tão bonitas, tão modernas, tão brasileiras!

Isto é...

Uma era ítalo-brasileira.

Outra era áfrico-brasileira.

Uma era branca.

Outra era preta.


(ANDRADE, M. Os melhores poemas.

São Paulo: Global, 1988)


Os poetas do Modernismo, sobretudo em sua

primeira fase, procuraram incorporar a oralidade

ao fazer poético, como parte de seu projeto de

configuração de uma identidade linguística e

nacional. No poema de Mário de Andrade esse

projeto revela-se, pois:

a)

a sensibilidade do artista não escapa do viés machista que marcava a sociedade do início do século XX, machismo expresso em “que até dão vontade pros homens da rua”.

b)

o poema capta uma cena do cotidiano — o caminhar de duas costureirinhas pela rua das Palmeiras — mas o andamento dos versos é truncado, o que faz com que o evento perca a

naturalidade.

c)

a sensibilidade do eu poético parece captar o movimento dançante das costureirinhas — depressinha — que, em última instância, representam um Brasil de “todas as cores”.

d)

o excesso de liberdade usado pelo poeta ao desrespeitar regras gramaticais, como as de pontuação, prejudica a compreensão do poema.

e)

o eu poético usa de ironia ao dizer da emoção de ver moças “tão modernas, tão brasileiras”, pois faz questão de afirmar as origens africana e italiana das mesmas.

5.

O trovador

Sentimentos em mim do asperamente

dos homens das primeiras eras...

As primaveras do sarcasmo

intermitentemente no meu coração arlequinal...

Intermitentemente...

Outras vezes é um doente, um frio

na minha alma doente como um longo som redondo...

Cantabona! Cantabona!

Dlorom...

Sou um tupi tangendo um alaúde!


(ANDRADE, M. In: MANFIO, D. Z. (Org.) Poesias completas de Mário de Andrade. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005)


Cara ao Modernismo, a questão da identidade nacional é recorrente na prosa e na poesia de Mário de Andrade. Em O trovador, esse aspecto é:


a)

abordado subliminarmente, por meio de expressões como “coração arlequinal” que, evocando o carnaval, remete à brasilidade.

b)

verificado já no título, que remete aos repentistas nordestinos, estudados por Mário de Andrade em suas viagens e pesquisas folclóricas.

c)

lamentado pelo eu lírico, tanto no uso de expressões como “Sentimentos em mim do asperamente” (v. 1), “frio” (v. 6), “alma doente” (v. 7), como pelo som triste do alaúde “Dlorom”(v. 9).

d)

problematizado na oposição tupi (selvagem) x alaúde (civilizado), apontando a síntese nacional que seria proposta no Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.

e)

exaltado pelo eu lírico, que evoca os “sentimentos dos homens das primeiras eras” para mostrar o orgulho brasileiro por suas raízes indígenas.

6.

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número.

Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.


(BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira: poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980)


No poema de Manuel Bandeira, há uma ressignificação de elementos da função referencial da linguagem pela:

a)

atribuição de título ao texto com base em uma notícia veiculada em jornal.

b)

utilização de frases curtas, características de textos do gênero jornalístico.

c)

indicação de nomes de lugares como garantia da veracidade da cena narrada.

d)

enumeração de ações, com foco nos eventos acontecidos à personagem do texto.

e)

apresentação de elementos próprios da noticia, tais como quem, onde, quando e o quê.

7.

Leia os textos abaixo e em seguida, assinale a alternativa correta.

Texto 1

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana, a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive (...)

"Vou-me embora pra Pasárgada"

Manuel Bandeira, in: Libertinagem.


Texto 2

Paródia

Que Manuel Bandeira me perdoe, mas

Vou-me embora de Pasárgada

Vou-me embora de Pasárgada

Sou inimigo do Rei

Não tenho nada que eu quero

Não tenho e nunca terei

Aqui eu não sou feliz

A existência é tão dura

As elites tão senis

Que Joana, a louca da Espanha,

Ainda é mais coerente

Do que os donos do país.

A gente só faz ginástica

Nos velhos trens da Central

Se quer comer todo dia

A polícia baixa o pau

E como já estou cansado

Sem esperança num país

Em que tudo nos revolta

Já comprei ida sem volta

Pra qualquer outro lugar

Aqui não quero ficar.

Vou-me embora de Pasárgada. (...)

"Vou-me embora de Pasárgada" - Millôr Fernandes.

Caderno Mais! 17/03/2001.

a)

Millôr cita " Vou-me embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeira, mas não estabelece diálogo intertextual, já que apenas imita comicamente o poema de Bandeira.

b)

"Vou-me embora de Pasárgada", de Millôr Fernandes, pode ser caracterizado como um exercício intertextual em relação a "Vou-me embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeira. Mas Millôr não inova em nada: repete o cenário e o tema do poema de Bandeira, ou seja, uma cidade imaginária e perfeita em um mundo idealizado.

c)

O poema de Millôr não estabelece nenhuma relação intertextual com o poema de Bandeira. Isso pode ser comprovado pela ausência de referências ao poema de Bandeira.

d)

O poema de Millôr não pode ser caracterizado como um exercício intertextual em relação ao poema de Bandeira, já que Millôr apenas o ambientaliza na sociedade brasileira de hoje.

e)

O poema de Millôr dialoga com o de Manuel Bandeira e inova não apenas no conteúdo, ambientalizando-o no Brasil de hoje, mas também no uso da preposição associada à palavra "Pasárgada": Em Bandeira, "pra Pasárgada" sugere a ida para um lugar bom, ideal. Em Millôr, "de Pasárgada" sugere a fuga de um lugar ruim (o Brasil de hoje).