WorksheetsModernismo 1ª fase
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Vei, a Sol
Ora o pássaro careceu de fazer necessidade, fez e o herói ficou escorrendo sujeira de urubu.
Já era de madrugadinha e o tempo estava inteiramente frio. Macunaíma acordou tremendo,
todo lambuzado. Assim mesmo examinou bem pedra mirim da ilhota para vê si não havia
alguma cova com dinheiro enterrado. Não havia não. Nem a correntinha encantada de prata que indica pro escolhido, tesouro de holandês. Havia só as formigas jaquitaguas ruivinhas.
Então passou Caiuanogue, a estrela da manhã. Macunaíma já meio enjoado de tanto viver pediu
pra ela que o carregasse pro céu. Caiuanogue foi se chegando porém o herói fedia muito.
— Vá tomar banho! — ela fez. E foi-se embora. Assim nasceu a expressão “Vá tomar banho”
que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus.
(ANDRADE, M. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008)
O fragmento de texto faz parte do capítulo VII, intitulado “Vei, a Sol”, do livro Macunaíma, de Mário de Andrade, pertencente à primeira fase do Modernismo brasileiro. Considerando a linguagem empregada pelo narrador, é possível identificar:
uso da linguagem coloquial e de temáticas do lendário brasileiro como meio de valorização da cultura popular nacional.
ausência de linearidade no tratamento do tempo, recurso comum ao texto narrativo da
primeira fase modernista.
referência à fauna como meio de denunciar o primitivismo e o atraso de algumas regiões do
país.
descrição preconceituosa dos tipos populares brasileiros, representados por Macunaíma e
Caiuanogue.
resquícios do discurso naturalista usado pelos escritores do século XIX.
Cena
O canivete voou
E o negro comprado na cadeia
Estatelou de costas
E bateu coa cabeça na pedra
(ANDRADE, O. Pau-brasil. São Paulo: Globo, 2001)
O Modernismo representou uma ruptura com os padrões formais e temáticos até então vigentes na literatura brasileira. Seguindo esses aspectos, o que caracteriza o poema Cena como modernista é o(a):
construção linguística por meio de neologismo.
estabelecimento de um campo semântico inusitado.
configuração de um sentimentalismo conciso e irônico.
subversão de lugares-comuns tradicionais.
uso da técnica de montagem de imagens justapostas.
Camelôs
Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:
O que vende balõezinhos de cor
O macaquinho que trepa no coqueiro
O cachorrinho que bate com o rabo
Os homenzinhos que jogam boxe
A perereca verde que de repente dá um pulo
que engraçado
E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão
coisa alguma.
Alegria das calçadas
Uns falam pelos cotovelos:
- "O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho,
vai buscar um pedaço de banana para eu acender o charuto.
Naturalmente o menino pensará: Papai está malu...”
Outros, coitados, têm a língua atada.
Todos porém sabem mexer nos cordéis como o tino ingênuo de demiurgos de inutilidades.
E ensinam no tumulto das ruas os mitos heroicos da meninice...
E dão aos homens que passam preocupados ou tristes uma lição de infância.
(BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007)
Uma das diretrizes do Modernismo foi a percepção de elementos do cotidiano como matéria de
inspiração poética. O poema de Manuel Bandeira exemplifica essa tendência e alcança expressividade porque:
realiza um inventário dos elementos lúdicos tradicionais da criança brasileira.
promove um reflexão sobre a realidade de pobreza dos centros urbanos.
traduz em linguagem lírica o mosaico de elementos de significação corriqueira
introduz a interlocução como mecanismo de construção de uma poética nova.
constata a condição melancólica dos homens distantes da simplicidade infantil.
Sambinha
Vêm duas costureirinhas pela rua das Palmeiras.
Afobadas braços dados depressinha
Bonitas, Senhor! que até dão vontade pros homens da rua.
As costureirinhas vão explorando perigos...
Vestido é de seda.
Roupa-branca é de morim.
Falando conversas fiadas
As duas costureirinhas passam por mim.
— Você vai?
— Não vou não!
Parece que a rua parou pra escutá-las.
Nem trilhos sapecas
Jogam mais bondes um pro outro.
E o Sol da tardinha de abril
Espia entre as pálpebras sapiroquentas de duas
nuvens.
As nuvens são vermelhas.
A tardinha cor-de-rosa.
Fiquei querendo bem aquelas duas costureirinhas...
Fizeram-me peito batendo
Tão bonitas, tão modernas, tão brasileiras!
Isto é...
Uma era ítalo-brasileira.
Outra era áfrico-brasileira.
Uma era branca.
Outra era preta.
(ANDRADE, M. Os melhores poemas.
São Paulo: Global, 1988)
Os poetas do Modernismo, sobretudo em sua
primeira fase, procuraram incorporar a oralidade
ao fazer poético, como parte de seu projeto de
configuração de uma identidade linguística e
nacional. No poema de Mário de Andrade esse
projeto revela-se, pois:
a sensibilidade do artista não escapa do viés machista que marcava a sociedade do início do século XX, machismo expresso em “que até dão vontade pros homens da rua”.
o poema capta uma cena do cotidiano — o caminhar de duas costureirinhas pela rua das Palmeiras — mas o andamento dos versos é truncado, o que faz com que o evento perca a
naturalidade.
a sensibilidade do eu poético parece captar o movimento dançante das costureirinhas — depressinha — que, em última instância, representam um Brasil de “todas as cores”.
o excesso de liberdade usado pelo poeta ao desrespeitar regras gramaticais, como as de pontuação, prejudica a compreensão do poema.
o eu poético usa de ironia ao dizer da emoção de ver moças “tão modernas, tão brasileiras”, pois faz questão de afirmar as origens africana e italiana das mesmas.
O trovador
Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras...
As primaveras do sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal...
Intermitentemente...
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo...
Cantabona! Cantabona!
Dlorom...
Sou um tupi tangendo um alaúde!
(ANDRADE, M. In: MANFIO, D. Z. (Org.) Poesias completas de Mário de Andrade. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005)
Cara ao Modernismo, a questão da identidade nacional é recorrente na prosa e na poesia de Mário de Andrade. Em O trovador, esse aspecto é:
abordado subliminarmente, por meio de expressões como “coração arlequinal” que, evocando o carnaval, remete à brasilidade.
verificado já no título, que remete aos repentistas nordestinos, estudados por Mário de Andrade em suas viagens e pesquisas folclóricas.
lamentado pelo eu lírico, tanto no uso de expressões como “Sentimentos em mim do asperamente” (v. 1), “frio” (v. 6), “alma doente” (v. 7), como pelo som triste do alaúde “Dlorom”(v. 9).
problematizado na oposição tupi (selvagem) x alaúde (civilizado), apontando a síntese nacional que seria proposta no Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.
exaltado pelo eu lírico, que evoca os “sentimentos dos homens das primeiras eras” para mostrar o orgulho brasileiro por suas raízes indígenas.
Poema tirado de uma notícia de jornal
João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
(BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira: poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980)
No poema de Manuel Bandeira, há uma ressignificação de elementos da função referencial da linguagem pela:
atribuição de título ao texto com base em uma notícia veiculada em jornal.
utilização de frases curtas, características de textos do gênero jornalístico.
indicação de nomes de lugares como garantia da veracidade da cena narrada.
enumeração de ações, com foco nos eventos acontecidos à personagem do texto.
apresentação de elementos próprios da noticia, tais como quem, onde, quando e o quê.
Leia os textos abaixo e em seguida, assinale a alternativa correta.
Texto 1
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana, a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive (...)
"Vou-me embora pra Pasárgada"
Manuel Bandeira, in: Libertinagem.
Texto 2
Paródia
Que Manuel Bandeira me perdoe, mas
Vou-me embora de Pasárgada
Vou-me embora de Pasárgada
Sou inimigo do Rei
Não tenho nada que eu quero
Não tenho e nunca terei
Aqui eu não sou feliz
A existência é tão dura
As elites tão senis
Que Joana, a louca da Espanha,
Ainda é mais coerente
Do que os donos do país.
A gente só faz ginástica
Nos velhos trens da Central
Se quer comer todo dia
A polícia baixa o pau
E como já estou cansado
Sem esperança num país
Em que tudo nos revolta
Já comprei ida sem volta
Pra qualquer outro lugar
Aqui não quero ficar.
Vou-me embora de Pasárgada. (...)
"Vou-me embora de Pasárgada" - Millôr Fernandes.
Caderno Mais! 17/03/2001.
Millôr cita " Vou-me embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeira, mas não estabelece diálogo intertextual, já que apenas imita comicamente o poema de Bandeira.
"Vou-me embora de Pasárgada", de Millôr Fernandes, pode ser caracterizado como um exercício intertextual em relação a "Vou-me embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeira. Mas Millôr não inova em nada: repete o cenário e o tema do poema de Bandeira, ou seja, uma cidade imaginária e perfeita em um mundo idealizado.
O poema de Millôr não estabelece nenhuma relação intertextual com o poema de Bandeira. Isso pode ser comprovado pela ausência de referências ao poema de Bandeira.
O poema de Millôr não pode ser caracterizado como um exercício intertextual em relação ao poema de Bandeira, já que Millôr apenas o ambientaliza na sociedade brasileira de hoje.
O poema de Millôr dialoga com o de Manuel Bandeira e inova não apenas no conteúdo, ambientalizando-o no Brasil de hoje, mas também no uso da preposição associada à palavra "Pasárgada": Em Bandeira, "pra Pasárgada" sugere a ida para um lugar bom, ideal. Em Millôr, "de Pasárgada" sugere a fuga de um lugar ruim (o Brasil de hoje).
