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DANIELE BEDIN
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RELATO
Criadora da Feira Preta, Adriana Barbosa está entre os 51 negros mais influentes do mundo
A paulista conta a trajetória para valorizar sua cultura e realizar anualmente o maior evento de empreendedorismo negro da América Latina
DEPOIMENTO À FERNANDA FROZZA
Como pode ter demorado tanto para mais da metade da população ganhar voz? Quando era adolescente, andava pelo mercado e só encontrava xampu “para cabelos rebeldes”, não se falava em representatividade e eram os homens brancos que contavam dinheiro no fim da noite em uma casa noturna de black music. Foi um longo processo, mas hoje finalmente vivemos em um País diferente, e me orgulho de ter contribuído para essa mudança de desenvolvimento e consumo. Meu nome é Adriana Barbosa, tenho 41 anos, e sou idealizadora da Feira Preta, plataforma responsável por criar projetos para valorizar nossa cultura e realizar anualmente o maior evento de empreendedorismo negro da América Latina.
[...] Voltamos para casa lamentando e decidimos que não dava para viver mais naquele esquema. Até que veio a ideia: por que a gente não cria uma feira com a nossa identidade e cultura?
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Dona da própria história
Já existia uma cena negra muito forte na Vila Madalena, principalmente entre produtores e técnicos de som das festas.
O problema é que as baladas eram feitas por negros, frequentadas por negros, mas estavam nas mãos de homens brancos. Não fazia sentido, né? Tiramos o plano do papel. A ideia era que empreendedores e artistas negros divulgassem seus trabalhos e pudessem viver a partir dele. Dito e feito: pela primeira vez, éramos proprietárias da nossa história! No mesmo ano, demos vida à Feira Preta, na praça Benedito Calixto, em Pinheiros, SP. Conseguimos reunir 40 expositores e um público de 5 mil pessoas. Foi um sucesso! Os números mostravam a demanda reprimida, o que não queria dizer que o caminho seria fácil. Pelo contrário.
Acredite, uma das coisas que eu mais ouvi é que não queriam associar a marca a um evento que chamava Feira Preta, alegando “conflito racial”, mas o intuito do nome era mostrar que parte da população precisava ser percebida. Coincidência ou não, nessa época, [uma empresa] estava lançando o primeiro sabonete para pele negra e, assim, conseguimos patrocínio. Ali, vi que tinha encontrado uma nova profissão. Definitivamente, a área de Comunicação era passado na minha vida.
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Profissão: empreendedora
Foi um processo até descobrir meu papel nesse ecossistema de empreendedorismo social, que tem que dar lucro, mas também tem que impactar a sociedade. Decidi me profissionalizar e fazer faculdade. Em 2008, aos 30 anos, me formei em Gestão de Eventos [...] e depois fiz pós-graduação em Gestão Cultural [...]. A Feira Preta deixou de ser só um evento para virar uma plataforma.
A feira começou bem pequenininha e ganhou mais espaço do que imaginava, tanto que participei de um evento em que ninguém menos que Barack Obama também estava. Dá para acreditar ? Foi em 2017, quando fui premiada em Nova York e entrei para a lista dos 51 negros com menos de 40 anos mais influentes do mundo, pelo Most Influential People of African Descent, o MIPAD. Além de mim, só outros dois brasileiros entraram para a lista: Lázaro Ramos e Taís Araújo – ela, inclusive, colaborou com uma “vaquinha” ao lado de outras 90 pessoas para me ajudar a viajar e receber o prêmio. Sou muito grata!
Ninguém segura
Olho para trás e vejo 17 anos de história em que a gente descentraliza o conteúdo de cultura negra pelo menos uma vez por ano em São Paulo e esporadicamente em outras cidades do Brasil. Nossa equipe fixa é formada por 25 pessoas, mas no dia do festival chega a 150, sempre com essa lógica de priorizar microempreendedores negros, desde a assessoria de imprensa ao técnico de som.
Na última edição, em novembro de 2018, batemos recorde de público, com 52 mil pessoas e mais de 120 empreendedores de diversos Estados.
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Trocamos o xampu “para cabelos rebeldes” por ativador de cachos, desenvolvemos produtos que atendem o consumidor negro e fizemos muita gente enxergar o que já sabíamos: mais da metade da categoria dos microempreendedores no Brasil é negra. Mais precisamente 51%, de acordo com o Sebrae. Posso fazer uma lista de conquistas ao longo desses anos, mas também consigo enumerar uma série de projetos que ainda quero tirar do papel. Já percebeu que eu sonho alto, né? Tenho vontade de levar a feira para outros cantos do mundo, como Colômbia, Estados Unidos e países africanos de língua portuguesa. Sei que somos uma marca forte, mas temos potencial para chegar ainda mais longe e há uma longa luta pela frente.
Ainda lido com situações de discriminação no meu dia a dia de trabalho e o racismo é presente. Até por isso, o mais difícil durante esse tempo foi diferenciar a Adriana Barbosa da Feira Preta. Quando recebia a negativa de uma marca que não queria se associar a uma mulher negra, imediatamente pensava: “então você não quer se associar a mim”. Trabalhei na terapia para que meus dilemas enquanto mulher negra não se envolvessem nas minhas negociações profissionais. Foi preciso muita autoestima para fazer o que eu faço hoje. Mas se tem uma coisa que não me falta nesta vida, além de autoestima, é coragem. E ela segue comigo nessa caminhada que, sem dúvida, não para por aqui.
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Open Ended
Releia o trecho inicial da matéria e no seu caderno, responda as questões abaixo.
Como pode ter demorado tanto para mais da metade da população ganhar voz? Quando era adolescente, andava pelo mercado e só encontrava xampu “para cabelos rebeldes”, não se falava em representatividade e eram os homens brancos que contavam dinheiro no fim da noite em uma casa noturna de black music.
a) Considerando o enunciador que se projeta no texto e a experiência relatada, a quem se refere a expressão mais da metade da população? (D04)
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Multiple Choice
Nesse texto, no trecho, “Dito e feito: pela primeira vez, éramos proprietárias da nossa história!”, a expressão destacada produz sentido de
A) Pertencimento
B) depreciação.
C) competição.
D) ostentação.
8
Audio Response
Releia o trecho: “Já existia uma cena negra muito forte na Vila Madalena, principalmente entre produtores e técnicos de som das festas.
Responda por áudio: Em que medida os planos iniciais de Adriana e de sua amiga podem ser considerados uma tentativa de “dissolver” essa contradição?

9
Multiple Choice
No trecho, …“então você não quer se associar a mim”., as aspas foram usadas para
A) demonstrar o descontentamento da entrevistada.
B) mostrar a falta de apoio que a entrevistada viveu.
C) representar o pensamento de Adriana.
D) apresentar a fala da entrevistadora.
10
Video Response
Faça um vídeo de um relato de algo relevante que já passou em sua vida. Vídeo de máximo 2 minutos

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